Conto, O anjo Rafael, 1869

O anjo Rafael

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1869.

I

Cansado da vida, descrente dos homens, desconfiado das
mulheres e aborrecido dos credores, o dr. Antero da Silva determinou um dia
despedir-se deste mundo.

Era pena. O dr. Antero contava trinta anos, tinha sade, e
podia, se quisesse, fazer uma bonita carreira. Verdade  que para isso fora
necessrio proceder a uma completa reforma dos seus costumes. Entendia, porm,
o nosso heri que o defeito no estava em si, mas nos outros; cada pedido de um
credor inspirava-lhe uma apstrofe contra a sociedade; julgava conhecer os
homens, por ter tratado at ento com alguns bonecos sem conscincia; pretendia
conhecer as mulheres, quando apenas havia praticado com meia dzia de regateiras
do amor.

O caso  que o nosso heri determinou matar-se, e para
isso foi  casa da viva Laport, comprou uma pistola e entrou em casa, que era
 rua da Misericrdia.

Davam ento quatro horas da tarde.

O dr. Antero disse ao criado que pusesse o jantar na mesa.

 A viagem  longa, disse ele consigo, e eu no sei se h
hotis no caminho.

Jantou com efeito, to tranqilo como se tivesse de ir
dormir a sesta e no o ltimo sono. O prprio criado reparou que o amo estava
nesse dia mais folgazo que nunca. Conversaram alegremente durante todo o
jantar. No fim dele, quando o criado lhe trouxe o caf, Antero proferiu
paternalmente as seguintes palavras:

 Pedro, tira de minha gaveta uns cinqenta mil-ris que
l esto, so teus. Vai passar a noite fora e no voltes antes da madrugada.

 Obrigado, meu senhor, respondeu Pedro.

 Vai.

Pedro apressou-se a executar a ordem do amo.

O dr. Antero foi para a sala, estendeu-se no div, abriu
um volume do Dicionrio filosfico e comeou a ler.

J ento declinava a tarde e aproximava-se a noite. A
leitura do dr. Antero no podia ser longa. Efetivamente da a algum tempo
levantou-se o nosso heri e fechou o livro.

Uma fresca brisa penetrava na sala e anunciava uma
agradvel noite. Corria ento o inverno, aquele benigno inverno que os
fluminenses tm a ventura de conhecer e agradecer ao cu.

O dr. Antero acendeu uma vela e sentou-se  mesa para
escrever. No tinha parentes, nem amigos a quem deixar carta; entretanto, no
queria sair deste mundo sem dizer a respeito dele a sua ltima palavra. Travou
da pena e escreveu as seguintes linhas:

Quando um homem, perdido no mato, v-se cercado de animais
ferozes e traioeiros, procura fugir se pode. De ordinrio a fuga  impossvel.
Mas estes animais meus semelhantes to traioeiros e ferozes como os outros,
tiveram a inpcia de inventar uma arma, mediante a qual um transviado
facilmente lhes escapa das unhas.

 justamente o que vou fazer.

Tenho ao p de mim uma pistola, plvora e bala; com estes
trs elementos reduzirei a minha vida ao nada. No levo nem deixo saudades.
Morro por estar enjoado da vida e por ter certa curiosidade da morte.

Provavelmente, quando a polcia descobrir o meu cadver,
os jornais escrevero a notcia do acontecimento, e um ou outro far a esse
respeito consideraes filosficas. Importam-me bem pouco as tais
consideraes.

Se me  lcito ter uma ltima vontade, quero que estas
linhas sejam publicadas no Jornal do Commercio. Os rimadores de ocasio
encontraro assunto para algumas estrofes.

O dr. Antero releu o que tinha escrito, corrigiu em alguns
lugares a pontuao, fechou o papel em forma de carta, e ps-lhe este
sobrescrito: Ao mundo.

Depois carregou a arma; e, para rematar a vida com um
trao de impiedade, a bucha que meteu no cano da pistola foi uma folha do
Evangelho de S. Joo.

Era noite fechada. O dr. Antero chegou-se  janela,
respirou um pouco, olhou para o cu, e disse s estrelas:

 At j.

E saindo da janela acrescentou mentalmente:

 Pobres estrelas! Eu bem quisera l ir, mas com certeza
ho de impedir-me os vermes da terra. Estou aqui, e estou feito um punhado de
p.  bem possvel que no futuro sculo sirva este meu invlucro para
macadamizar a rua do Ouvidor. Antes isso; ao menos terei o prazer de ser pisado
por alguns ps bonitos.

Ao mesmo tempo que fazia estas reflexes, lanava mo da
pistola, e olhava para ela com certo orgulho.

 Aqui est a chave que me vai abrir a porta deste
crcere, disse ele.

Depois sentou-se numa cadeira de braos, ps as pernas sobre
a mesa,  americana, firmou os cotovelos, e segurando a pistola com ambas as
mos, meteu o cano entre os dentes.

J ia disparar o tiro, quando ouviu trs pancadinhas 
porta. Involuntariamente levantou a cabea. Depois de um curto silncio
repetiram-se as pancadinhas. O rapaz no esperava ningum, e era-lhe
indiferente falar a quem quer que fosse. Contudo, por maior que seja a
tranqilidade de um homem quando resolve abandonar a vida, -lhe sempre
agradvel achar um pretexto para prolong-la um pouco mais.

O dr. Antero ps a pistola sobre a mesa e foi abrir a
porta.

II

A pessoa que batera  porta era um homem grosseiramente
vestido. Trazia uma carta na mo.

 Que me quer? perguntou-lhe o dr. Antero.

 Trago esta carta, que lhe manda meu amo.

O dr. Antero aproximou-se da luz para ler a carta.

A carta dizia assim:

Uma pessoa que deseja propor um negcio ao sr. dr. Antero
da Silva pede-lhe que venha imediatamente  sua casa. O portador desta o
acompanhar. Trata-se de uma fortuna.

O rapaz leu e releu a carta, cuja letra no conhecia, e
cujo laconismo trazia um ar de mistrio.

 Quem  teu amo? perguntou o dr. Antero ao criado.

  o sr. major Toms.

 Toms de qu?

 No sei mais nada.

O dr. Antero franziu a testa. Que mistrio seria aquele? Uma
carta sem assinatura, uma proposta lacnica, um criado que no sabia o nome do
patro, eis quanto bastou para despertar vivamente a curiosidade do dr. Antero.
Apesar de no ter o esprito propenso s aventuras, esta o impressionara a tal
ponto que esqueceu por um instante a lgubre viagem to friamente planeada.

Olhou para o criado atentamente; as feies eram comuns, o
olhar pouco menos de estpido. Evidentemente no era um cmplice, se  que no
fundo daquela aventura havia um crime.

 Onde mora teu amo? perguntou o dr. Antero.

 Na Tijuca, respondeu o criado.

 Mora s?

 Com uma filha.

 Menina ou moa?

 Moa.

 Que qualidade de homem  o major Toms?

 No lhe posso dizer, respondeu o criado, porque fui para
l h oito dias apenas. Quando entrei, disse-me o patro: Jos, a tua
obrigao  servir muito, falar pouco e no ver nada. At hoje tenho executado
a ordem do patro.

 H mais criados em casa? perguntou o dr. Antero.

 H uma criada, que serve  filha do amo.

 Ningum mais?

 Ningum mais.

A idia do suicdio j estava longe do esprito do dr.
Antero. O que o prendia agora era o mistrio daquela misso noturna e as
singulares referncias do portador da carta. Varreu-lhe do esprito igualmente
a suspeita de um crime. A sua vida tinha sido to indiferente ao resto dos
homens, que no podia ter inspirado a ningum a idia de uma vingana.

Contudo, hesitava ainda; mas relendo o misterioso bilhete,
reparou nas ltimas palavras: trata-se de uma fortuna; palavras que nas duas
primeiras leituras apenas lhe causaram uma ligeira impresso.

Quando um homem quer deixar a vida por um simples
aborrecimento, a promessa de uma fortuna  razo bastante para suspender o
passo fatal. No caso do dr. Antero a promessa da fortuna era razo decisiva. Se
averiguarmos bem a causa principal do tdio que este mundo lhe inspirava,
veremos que no  outra seno a falta de cabedais. Desde que estes lhe batiam 
porta, o suicdio j no tinha razo de ser.

O doutor disse ao criado que o esperasse, e tratou de
vestir-se.

 Em todo o caso, disse ele consigo, a todo tempo  tempo;
se no morrer hoje posso morrer amanh.

Vestiu-se, e lembrando-se de que seria conveniente ir
armado, meteu a pistola no bolso, e saiu acompanhado pelo criado.

Quando os dois chegaram  porta da rua, j os esperava um
carro. O criado convidou o dr. Antero a entrar, e foi sentar na almofada com o
cocheiro.

Conquanto os cavalos fossem a trote largo, longa pareceu a
viagem ao doutor, que, apesar das circunstncias singulares daquela aventura,
tinha nsia por ver-lhe o desfecho. Entretanto,  proporo que o carro se ia
afastando do centro populoso da cidade, o esprito do nosso viajante tomava-se
de certa apreenso. Era ele mais estouvado que animoso; a sua tranqilidade
diante da morte no era resultado do valor de nimo. No fundo do seu esprito
havia uma extrema dose de fraqueza. Podia disfar-la quando dominava os
acontecimentos; mas agora que os acontecimentos dominavam a ele, facilmente
desaparecia o simulacro de coragem.

Enfim o carro chegou  Tijuca, e, depois de andar um
grande espao, parou diante de uma chcara completamente separada de todas as
demais habitaes.

O criado veio abrir a porta, e o doutor apeou-se. As
pernas tremiam-lhe um pouco, e o corao pulsava-lhe apressadamente. Estavam
diante de um porto fechado. A chcara era cercada por um muro um tanto baixo,
por cima do qual o dr. Antero pde ver a casa de habitao, colocada no fundo
da chcara perto da encosta de uma colina.

O carro deu volta e partiu, enquanto o criado abria o
porto com uma chave que trazia no bolso. Entraram os dois, e o criado fechando
por dentro o porto indicou o caminho ao dr. Antero.

No quero dar ao meu heri propores que ele no tem;
confesso que naquele momento o dr. Antero da Silva estava bem arrependido de
ter aberto a porta ao importuno portador da carta. Se pudesse fugir, fugia,
ainda correndo o risco de passar por covarde aos olhos do criado. Mas era
impossvel. O doutor fez das tripas corao, e caminhou na direo da casa.

A noite era clara, mas sem lua; soprava um vento que
agitava brandamente as folhas das rvores.

O doutor caminhava por uma alameda acompanhado pelo
criado; rangia a areia debaixo de seus ps. Apalpou o bolso para verificar se
tinha a pistola consigo; em todo o caso era um recurso.

Quando chegaram ao meio do caminho o doutor perguntou ao
criado:

 O carro no volta?

 Suponho que sim; meu amo o informar melhor.

O doutor teve uma idia sbita: empregar o tiro no criado,
saltar o muro e voltar para casa. Chegou a engatilhar a arma, mas imediatamente
refletiu que o rudo despertaria a ateno, e a sua fuga tornava-se improvvel.

Resignou-se, pois,  sorte, e caminhou para a casa
misteriosa.

Misteriosa  o termo; todas as janelas estavam fechadas;
no havia uma nica rstia de luz; no se ouvia o menor rumor de fala.

O criado tirou do bolso outra chave, e com ela abriu a
porta da casa, que tornou a fechar apenas o doutor entrou. A tirou o criado do
bolso uma caixa de fsforos, acendeu um, e com ele um rolo de cera que trazia
consigo.

O doutor viu ento que se achava em uma espcie de ptio,
tendo ao fundo uma escada comunicando para o sobrado. Perto da porta de entrada
havia um cubculo tapado por um gradil de ferro, e que servia de casa a um
enorme co. O co entrou a rosnar quando pressentiu gente; mas o criado f-lo
calar, dizendo:

 Silncio, Dolabela!

Subiram a escada at acima, e depois de atravessarem um
extenso corredor, acharam-se diante de uma porta fechada. O criado tirou do
bolso uma terceira chave, e depois de abrir a porta convidou o dr. Antero a
entrar, dizendo:

 Queira o senhor esperar aqui, enquanto eu vou dar parte
a meu amo da sua chegada. Entretanto, deixe-me acender-lhe uma vela.

Efetivamente acendeu uma vela que se achava dentro de um
castial de bronze em cima de uma pequena mesa redonda de mogno, e saiu.

O dr. Antero achava-se num quarto; havia a um lado uma
cama alta; a moblia era de um gosto severo; o quarto tinha apenas uma janela,
mas gradeada. Sobre a mesa havia alguns livros, pena, papel e tinta.

 fcil imaginar a nsia com que o doutor esperou a
resposta do seu misterioso correspondente. O que ele queria era pr termo
quela aventura que tinha ares de um conto de Hoffmann. A resposta no se
demorou. O criado voltou dizendo que o major Toms no podia falar
imediatamente ao doutor; oferecia-lhe quarto e cama, e adiava. a explicao
para o dia seguinte.

O doutor insistiu em falar-lhe naquela ocasio,
pretextando ter importante motivo de voltar  cidade; no caso de no poder o
major falar-lhe, propunha ele voltar no dia seguinte. O criado ouviu-o com todo
o respeito, mas declarou que no voltaria ao patro, cujas ordens eram
imperiosas. O doutor ofereceu dinheiro ao criado; mas este recusou os presentes
de Artaxerxes com um gesto to solene, que tapou a boca ao moo.

 Tenho ordem, disse finalmente o criado, de trazer-lhe
uma ceia.

 No tenho fome, respondeu o dr. Antero.

 Nesse caso, boa noite.

 Adeus.

O criado dirigiu-se para a porta, enquanto o doutor o
seguia ansiosamente com os olhos. Iria ele fechar-lhe a porta por fora?
Realizou-se a suspeita; o criado fechou a porta e levou a chave consigo.

 mais fcil imaginar que narrar a noite aflitiva do dr.
Antero. Os primeiros raios do sol, penetrando atravs das grades da janela,
acharam-no vestido sobre a cama, onde s conseguira adormecer pelas quatro
horas da madrugada.

III

Ora, o nosso heri teve um sonho durante o curto espao de
tempo que dormiu. Sonhou que tendo executado o seu plano de suicdio, fora
levado para a cidade das dores eternas, onde Belzebu o destinava a ser
perpetuamente queimado numa imensa fogueira. O infeliz fazia as suas objees
ao anjo do reino escuro; mas este, com uma nica resposta, reiterava a ordem
dada. Quatro chanceleres infernais lanaram mo dele e o lanaram ao fogo. O
doutor deu um grito e acordou.

Saa de um sonho para entrar em outro.

Levantou-se espantado; no conhecia o quarto em que se
achava, nem a casa em que dormira. Mas pouco a pouco foi-lhe reproduzindo a
memria todos os incidentes da vspera. O sonho tinha sido um mal imaginrio;
mas a realidade era um mal positivo. O rapaz teve mpetos de gritar;
reconheceu, porm, a inutilidade do recurso; preferiu esperar.

No esperou muito; da alguns minutos ouviu o rudo da
chave na fechadura.

Entrou o criado.

Trazia na mo as folhas do dia.

 J de p!

 Sim, respondeu o dr. Antero. Que horas so?

 Oito horas. Aqui tem as folhas de hoje. Olhe, ali tem um
lavatrio

O doutor no havia reparado ainda no lavatrio; a
preocupao tinha-lhe feito esquecer a lavagem do rosto; tratou de remediar o
esquecimento.

Enquanto lavava o rosto, perguntou-lhe o criado:

 A que horas almoa?

 Almoar?

 Sim, almoar.

 Pois eu vou ficar aqui?

 So ordens que tenho.

 Mas, enfim, estou ansioso por falar a esse major que no
conheo, e que me tem preso sem que eu saiba por que motivo.

 Preso! exclamou o criado. O senhor no est preso; meu
amo quer falar-lhe, e por isso  que eu o fui chamar; deu-lhe quarto, cama,
d-lhe um almoo; creio que isto no  t-lo preso.

O doutor tinha enxugado o rosto, e sentou-se numa
poltrona.

 Mas que me quer teu amo? perguntou-lhe.

 Isso no sei, respondeu o criado. A que horas quer o
almoo?

 A que for do teu gosto.

 Bem, respondeu o criado. Aqui tem as folhas.

O criado fez um respeitoso cumprimento ao doutor e saiu
fechando a porta.

Cada minuto que passava era para o desgraado moo um
sculo de angstia. O que mais o torturava eram precisamente aquelas atenes,
aqueles obsquios sem explicao possvel, sem presumvel desfecho. Que homem
seria esse major, e que lhe queria ele? O doutor fez mil vezes esta pergunta a
si mesmo sem achar resposta possvel.

Do criado j sabia ele que nada poderia alcanar; alm de
novo na casa, parecia absolutamente estpido. Seria honesto?

O dr. Antero fez esta ltima reflexo metendo a mo no
bolso e tirando a carteira. Restavam-lhe ainda uns cinqenta mil-ris.

  quanto basta, pensou ele, para conseguir deste pateta
que me ponha fora daqui.

O doutor esquecia que j na vspera o criado recusara
dinheiro em troca de um servio menos importante.

s nove horas o criado voltou trazendo numa bandeja um
almoo delicado e apetitoso. Apesar da gravidade da situao, o nosso heri
atacou o almoo com uma intrepidez de verdadeiro general de mesa. Dentro de
vinte minutos s restavam nos pratos mortos e feridos.

Ao mesmo tempo que comia ia ele interrogando o criado.

 Dize-me c; queres fazer-me um grande favor?

 Qual?

 Tenho aqui cinqenta mil-ris  tua disposio, e amanh
posso dar-te mais cinqenta, ou cem, ou duzentos; em troca disto peo-te que
arranjes meio de me pr fora desta casa.

 Impossvel, senhor, respondeu o criado sorrindo; eu s
obedeo a meu amo.

 Sim; mas teu amo nunca vir a saber que eu te dei
dinheiro; tu podes dizer-lhe que a minha fuga foi devida a um descuido, e deste
modo ficamos ambos salvos.

 Eu sou honrado; no posso aceitar o seu dinheiro.

O doutor ficou desanimado com a austeridade do fmulo;
bebeu o resto do borgonha que tinha no copo, e levantou-se fazendo um gesto de
desespero.

O criado no se impressionou; preparou o caf para o
hspede e foi oferecer-lhe. O doutor bebeu dois ou trs goles e restituiu-lhe a
xcara. O criado arrumou a loua na bandeja e saiu.

No fim de meia hora voltou o criado dizendo que seu amo
estava pronto para receber o dr. Antero.

Conquanto o doutor desejasse sair da situao em que se
achava, e saber o fim para que o haviam mandado buscar, nem por isso o
impressionou menos a idia de ir ver enfim o terrvel e desconhecido major.

Lembrou-se que podia haver algum perigo, e instintivamente
apalpou a algibeira; esquecia-se de que ao deitar-se tinha posto a pistola
debaixo do travesseiro. Era impossvel tir-la  vista do criado, resignou-se.

O criado f-lo sair primeiro, fechou a porta e seguiu
adiante para guiar o msero doutor. Atravessaram o corredor por onde haviam
passado na vspera; depois entraram em outro corredor que ia ter a uma pequena
sala. A disse o criado ao doutor que esperasse enquanto ia dar parte a seu
amo, e penetrando numa sala que ficava  esquerda, voltou pouco depois dizendo
que o major esperava o dr. Antero.

O doutor passou  outra sala.

IV

Estava ao fundo, sentado numa poltrona de couro, um velho
alto e magro, envolvido num largo chambre amarelo.

O doutor deu apenas alguns passos e parou; mas o velho,
apontando-lhe para uma cadeira que lhe ficava defronte, convidou-o a sentar.

O doutor obedeceu imediatamente.

Houve um curto silncio, durante o qual o dr. Antero pde
examinar a figura que tinha diante de si.

Os cabelos do major Toms eram completamente brancos; a
tez era plida e macilenta. Os olhos vivos, mas encovados; dissera-se a luz de
uma vela prestes a extinguir-se, e soltando do fundo do castial os seus
ltimos lampejos.

Os beios do velho eram finos e brancos; e o nariz, curvo
como um bico de guia, assentado sobre um par de bigodes da cor dos cabelos; os
bigodes eram a base daquela enorme coluna.

O aspecto do major poderia causar menos desagradvel
impresso, se no fossem as bastas e cerradas sobrancelhas, cujas pontas
internas vinham ligar-se na parte superior do nariz; alm disso o velho
contraa constantemente a testa, o que lhe produzia uma enorme ruga que, vista
de longe, dava ares de ser uma continuao do nariz.

Independentemente das circunstncias especiais em que o
doutor se achava, a figura do major inspirava um sentimento de medo. Podia ser
uma excelente pessoa; mas o seu aspecto repugnava  vista e ao corao.

O dr. Antero no ousava romper o silncio; e limitava-se a
contemplar o homem. Este olhava alternativamente para o doutor e para as unhas.
As mos do velho pareciam garras; o dr. Antero j as estava sentindo cravadas
em si.

 Estou falando ao dr. Antero da Silva? perguntou
lentamente o major.

 Um seu criado.

 Criado de Deus, respondeu o major com um sorriso
estranho.

Depois continuou:

 Doutor em medicina, no?

 Sim, senhor.

 Conheci muito seu pai; fomos companheiros no tempo da
independncia. Era ele mais velho do que eu dois anos. Pobre coronel! ainda
hoje sinto a sua morte.

O moo respirou; a conversa levava um bom caminho; o major
confessava-se amigo de seu pai, e lhe falava nele. Animou-se um pouco, e disse:

 Tambm eu, sr. major.

 Bom velho! continuou o major; sincero, alegre,
valente...

  verdade.

O major levantou-se um pouco, apoiando as mos nos braos
da poltrona, e disse com voz surda:

 E mais que tudo, era obediente queles que tm uma
origem no cu!

O doutor arregalou os olhos; no compreendera bem o
sentido das ltimas palavras do major. No podia supor que aludisse aos
sentimentos religiosos de seu pai, que era tido no seu tempo como um profundo
materialista.

Contudo, no quis contrariar o velho, e procurou ao mesmo
tempo obter uma explicao.

  exato, disse o rapaz; meu pai era profundamente
religioso.

 Religioso no basta, respondeu o major brincando com os
cordes do chambre; conheo muita gente religiosa que no respeita os enviados
do cu. Creio que o senhor foi educado com as mesmas idias de seu pai, no?

 Sim, senhor, balbuciou o dr. Antero aturdido com as
palavras enigmticas do major.

Este, depois de esfregar as mos e torcer o bigode
repetidas vezes, perguntou ao seu interlocutor:

 Diga-me, foi bem tratado em minha casa?

 Magnificamente.

 Pois aqui vai morar a seu gosto e o tempo que lhe
parecer.

 Teria muita honra nisso, respondeu o doutor, se pudesse
dispor do meu tempo; h de consentir, pois, que eu recuse por enquanto o seu
oferecimento. Apressei-me a vir ontem por causa do bilhete que me mandou. Que
me quer V. Exa.?

 Duas coisas: a sua companhia e o seu casamento; dou-lhe
em troca uma fortuna.

O doutor olhou espantado para o velho, e este,
compreendendo o espanto do rapaz, disse-lhe sorrindo:

 De que se admira?

 Eu...

 Do casamento, no ?

 Sim, confesso que... No sei como mereo essa honra de
ser convidado para noivo mediante uma fortuna.

 Compreendo o seu espanto;  prprio de quem foi educado
l fora; eu c procedo de modo contrrio ao que se pratica nesse mundo. Mas,
vamos: aceita?

 Antes de tudo, sr. major, responda: por que se lembrou
de mim?

 Fui amigo de seu pai; quero prestar-lhe esta homenagem
pstuma, dando ao senhor em casamento a minha nica filha.

 Trata-se ento de sua filha?

 Sim, senhor; trata-se de Celestina.

Os olhos do velho tornaram-se mais vivos que nunca ao
pronunciar o nome da filha.

O dr. Antero olhou algum tempo para o cho e respondeu:

 Bem sabe que o amor  que faz os casamentos felizes.
Entregar uma moa a um rapaz a quem ela no ama  dar-lhe um suplcio...

 Suplcio! Ora, a vem o senhor com a linguagem l de
fora. Minha filha ignora at o que seja amor;  um anjo na raa e na candura.

Dizendo estas ltimas palavras o velho olhou para o teto e
ficou assim durante algum tempo como se contemplasse alguma coisa invisvel aos
olhos do rapaz. Depois, abaixando outra vez os olhos, continuou:

 A sua objeo no vale nada.

 Tenho outra;  justo que aqui dentro no exista a mesma ordem
de idias que h l fora; mas  natural que os que so l de fora no partilhem
as mesmas idias c de dentro. Por outros termos, eu no desejaria casar com
uma moa sem am-la.

 Aceito a objeo; estou certo que apenas a vir ficar
morrendo por ela.

  possvel.

  certo. Ora, pois, v para o seu quarto;  hora do
jantar mand-lo-ei chamar; jantaremos os trs.

O velho levantou-se e foi a um canto da sala puxar pelo
cordo de uma campainha. O dr. Antero teve ocasio de ver ento a estatura do major,
que era alta e at certo ponto majestosa.

Acudiu o criado e o major deu-lhe ordem de conduzir o
doutor para o quarto.

V

Quando o doutor se achou s no quarto entrou a meditar na
situao conforme se lhe desenhara ela depois da conversa com o major. O velho
parecia-lhe singularmente extravagante, mas falava-lhe do pai, mostrava-se
afvel, e afinal de contas oferecia a filha e uma riqueza. O esprito do moo
estava mais um pouco tranqilo.

 verdade que ele opusera objees  proposta do velho, e parecera
agarrar-se a todas as dificuldades, por menores que fossem. Mas eu no posso
ocultar que a resistncia do rapaz era talvez menos sincera do que ele prprio
pensava. A perspectiva da riqueza disfarou por algum tempo a singularidade da
situao.

A questo agora era ver a moa; se fosse bonita; se
tivesse uma fortuna, que mal havia em se casar ele com ela? O doutor aguardou a
hora do jantar com uma impacincia a que j no eram estranhos os clculos da
ambio.

O criado tinha-lhe posto  disposio um guarda-roupa, e
meia hora depois serviu-lhe um banho. Satisfeitas essas necessidades de asseio,
o doutor deitou-se na cama e tirou  vontade um dos livros que se achavam sobre
a mesa. Era um romance de Walter Scott. O rapaz, educado com o estilo de telegrama
dos livros de Ponson du Terrail, adormeceu logo  segunda pgina.

Quando acordou era tarde; recorreu ao relgio, e achou-o
parado; esquecera-se de lhe dar corda.

Receava que o criado o tivesse vindo chamar, e se
retirasse por encontr-lo a dormir. Era estrear mal a sua vida na casa de um
homem que talvez fizesse dele aquilo de que j nem tinha esperanas.

Imagine-se, pois, a ansiedade com que ele esperou as
horas.

Valia-lhe, porm, que, apesar dos receios, a sua
imaginao trabalhava sempre; e era de ver o quadro que ela desenhava no
futuro, os castelos que construa no ar; credores pagos, casas magnficas,
sales, bailes, carros, cavalos, viagens, mulheres enfim, porque nos sonhos do
dr. Antero havia sempre uma ou duas mulheres.

O criado veio enfim cham-lo.

A sala do jantar era pequena, mas ornada com muito gosto e
simplicidade.

Quando o doutor entrou no havia ningum; mas pouco depois
entrou o major, j vestido com uma sobrecasaca preta abotoada at o pescoo e
contrastando com a cor branca dos seus cabelos e bigodes e a tez plida do
rosto.

O major sentou-se  cabeceira da mesa, e o doutor 
esquerda; a cadeira da direita estava reservada para a filha do major.

Mas onde estava a moa? O doutor quis fazer a pergunta ao
velho; mas reparou a tempo que a pergunta seria indiscreta.

E sobre indiscreta, seria intil, porque alguns minutos
depois abriu-se uma porta que ficava fronteira ao lugar em que o doutor estava
sentado, e apareceu uma criada anunciando a chegada de Celestina.

O velho e o doutor levantaram-se.

A moa apareceu.

Era uma figura delgada e franzina, nem alta nem baixa, mas
extremamente airosa. No andou, deslisou da porta  mesa; seus ps deviam ser
asas de pomba.

O doutor ficou profundamente surpreendido com a apario;
at certo ponto contava com uma rapariga nem bonita nem feia, uma espcie de
fardo que s podia ser carregado aos ombros de uma fortuna. Pelo contrrio,
tinha diante de si uma verdadeira beleza.

Era, com efeito, um rosto anglico; transluzia-lhe no
semblante a virgindade do corao. Os olhos serenos e doces pareciam feitos
para a contemplao; os cabelos louros e cados em cachos naturais
assemelhavam-se a uma aurola. A tez era alva e finssima; todas as feies
eram de uma harmonia e correo admirveis. Rafael podia copiar dali uma das
suas virgens.

Vestia de branco; uma fita azul, presa  cintura,
delineava-lhe o talhe elegante e gracioso.

Celestina dirigiu-se ao pai e beijou-lhe a mo: depois
cumprimentou sorrindo ao dr. Antero, e sentou-se na cadeira que lhe estava
destinada.

O doutor no tirava os olhos dela. No esprito superficial
daquele homem entrava a descobrir-se uma profundidade.

Pouco depois de sentar-se, a moa voltou-se para o pai e
perguntou-lhe:

 Este senhor  o que vai ser meu marido?

 , respondeu o maior.

  bonito, disse ela sorrindo para o rapaz.

Havia tanta candura e simplicidade na pergunta e na
observao da moa, que o doutor voltou instintivamente a cabea para o major,
com mpetos de perguntar-lhe se devia acreditar nos seus ouvidos.

O velho compreendeu o espanto do rapaz, e sorriu
maliciosamente. O doutor olhou outra vez para Celestina, que o contemplava com
uma admirao to natural e to sincera, que o rapaz chegou... a corar.

Comearam a jantar.

A conversa comeou tolhida e esquerda, por causa do
doutor, que caminhava de espanto em espanto; mas dentro de pouco tornou-se
expansiva e franca.

Celestina era a mesma afabilidade do pai, realada pelas
graas da juventude, e mais ainda por uma singeleza to agreste, to nova, que
o doutor se julgava transportado a uma civilizao desconhecida.

Quando acabaram o jantar passaram  sala da sesta.
Chamava-se assim uma espcie de galeria de onde se descortinavam os arredores
da casa. Celestina deu o brao ao doutor sem que este lhe oferecesse e seguiram
os dois adiante do major, que ia resmungando uns salmos de Davi.

Na sala da sesta sentaram-se os trs; era a hora do
crepsculo; as montanhas e o cu comeavam a despir os vus da tarde para
vestir os da noite. A hora era propcia aos enlevos; o dr. Antero, posto que
educado em outra ordem de sensaes, sentia-se arrebatado nas asas da fantasia.

A conversa versou sobre mil coisas de nada; a moa disse
ao doutor que tinha dezessete anos, e perguntou a idade dele. Depois, contou
por menor todos os hbitos da sua vida, as suas prendas e seu gosto pelas
flores, o seu amor s estrelas, tudo isso com uma graa que tirava um pouco da
juventude e um pouco da infncia.

Voltou-se ao assunto do casamento, e Celestina perguntou
se o rapaz tinha dvida em casar com ela.

 Nenhuma, disse ele; pelo contrrio, tenho sumo prazer...
 uma felicidade para mim.

 Que lhe disse eu? perguntou o pai de Celestina. Eu j
sabia que bastava v-la para fic-la amando.

 Ento posso contar que seja meu marido, no?

 Sem dvida, disse o doutor sorrindo.

 Mas o que  marido? perguntou Celestina, depois de
alguns instantes.

A esta pergunta inesperada, o rapaz no pde reprimir um
movimento de surpresa. Olhou para o velho major; mas este, encostado na larga
poltrona em que se achava sentado, comeava a adormecer.

A moa repetia com os olhos a pergunta feita com os
lbios. O doutor envolveu-a com um olhar de amor, talvez o primeiro que teve em
sua vida; depois pegou docemente na mo de Celestina e levou-a aos lbios.

Celestina estremeceu toda e soltou um pequeno grito, que
fez acordar sobressaltado o major.

 Que ? disse este.

 Foi meu marido, respondeu a moa, que tocou com a boca
dele na minha mo.

O major levantou-se, olhou severamente para o rapaz, e
disse  filha:

 Est bem, vai para o teu quarto.

A moa ficou um pouco surpreendida com a ordem do pai, mas
obedeceu imediatamente, despedindo-se do rapaz com a mesma descuidosa
simplicidade com que lhe falara pela primeira vez.

Quando os dois ficaram ss, o major pegou no brao do
doutor, e disse-lhe:

 Meu caro senhor, respeite as pessoas do cu; quero um
genro, no quero um tratante. Ora, cuidado!

E saiu.

O dr. Antero ficou atnito com as palavras do major; era a
terceira vez que lhe falava em pessoas ou enviados do cu. Que queria dizer com
aquilo?

Pouco depois veio o criado com ordem de acompanh-lo at o
quarto; o doutor obedeceu sem fazer objeo.

VI

A noite foi m para o dr. Antero; acabara de assistir a
cenas to estranhas, ouvira palavras to misteriosas, que o pobre moo
perguntou a si mesmo se no era vtima de um sonho.

Infelizmente no era.

Aonde iria dar aquilo tudo? Qual o resultado da cena da
tarde? O rapaz temia, mas j no ousava pensar na fuga; a idia da moa
comeava a ser um vnculo.

Dormiu tarde e mal; foram-lhe agitados os sonhos.

No dia seguinte levantou-se cedo, e recebeu do criado as
folhas do dia. Enquanto no vinha a hora do almoo, quis ler as notcias do
mundo, do qual parecia estar separado por um abismo.

Ora, eis aqui o que encontrou no Jornal do Commercio:

Suicdio.  Anteontem,  noite, o dr. Antero da Silva,
depois de dizer ao seu criado que sasse e s voltasse de madrugada,
encerrou-se no quarto da casa que ocupava  rua da Misericrdia, e escreveu a
carta que os leitores encontraro adiante.

Como se v dessa carta, o dr. Antero da Silva declarava a
sua inteno de matar-se; mas a singularidade do caso  que, voltando o criado
para casa de madrugada, encontrou a carta, mas no encontrou o amo.

O criado deu imediatamente parte  polcia, que empregou
todas as diligncias a ver se obtinha notcia do jovem doutor.

Com efeito, depois de bem combinadas providncias,
encontrou-se na praia de Santa Luzia um cadver que se reconheceu ser o do
infeliz moo. Parece que, apesar da declarao de que empregaria a pistola, o
desgraado procurou outro meio menos violento de morte.

Supe-se que uma paixo amorosa o levou a cometer este
ato; outros querem que fosse por fugir aos credores. A carta entretanto reza de
outros motivos. Ei-la.

Aqui seguia a carta que vimos no primeiro captulo.

A leitura da notcia produziu no dr. Antero uma impresso
singular; estaria ele morto deveras? Teria j sado do mundo da realidade para
o mundo dos eternos sonhos? Era to extravagante tudo o que lhe acontecia desde
a antevspera, que o pobre rapaz sentiu por um instante vacilar-lhe a razo.

Mas pouco a pouco voltou  realidade das coisas;
interrogou a si e a tudo o que o rodeava; releu atentamente a notcia; a
identidade reconhecida pela polcia, que ao princpio o impressionara, f-lo
sorrir depois; e no menos o fez sorrir um dos motivos que se dava ao suicdio,
o motivo da paixo amorosa.

Quando o criado voltou, pediu-lhe o doutor notcia
circunstanciada do major e de sua filha. A moa estava boa; quanto ao major,
disse o criado que lhe ouvira de noite alguns soluos, e que de manh se
levantara abatido.

 Admira-me isto, acrescentou o criado, porque no sei que
tivesse motivo para chorar, e alm disso o amo  um velho alegre.

O doutor no respondeu; sem saber por que, atribua-se a
causa daqueles soluos do velho; foi a ocasio do seu primeiro remorso.

O criado disse-lhe que o almoo o esperava; o doutor
dirigiu-se para a sala de jantar onde achou o major realmente um pouco abatido.
Foi direito a ele.

O velho no se mostrou ressentido; falou-lhe com a mesma
bondade da vspera. Pouco depois chegou Celestina, bela, descuidosa, inocente
como da primeira vez; beijou a testa do pai, apertou a mo ao doutor e
sentou-se no seu lugar. O almoo correu sem incidente; a conversa nada teve de
notvel. O major props que na tarde desse dia Celestina executasse ao piano
alguma composio bonita, para que o doutor pudesse apreciar os seus talentos.

Entretanto a moa quis mostrar ao rapaz as suas flores, e
o pai deu-lhe licena para isso; a um olhar do velho a criada de Celestina
acompanhou os dois futuros noivos.

As flores de Celestina estavam todas em meia dzia de
vasos, postos sobre uma janela do seu gabinete de leitura e trabalho. Chamava
ela aquilo o seu jardim. Bem pequeno era ele, e pouco tempo exigia para o
exame; ainda assim, o doutor tratou de prolong-lo o mais que pde.

 Que me diz a estas violetas? perguntou a moa.

 So lindssimas! respondeu o doutor.

Celestina arranjou as folhas com sua mozinha delicada; o
doutor adiantou a sua mo para tocar nas folhas tambm; os dedos de ambos se
encontraram; a moa estremeceu, e baixou os olhos; um leve rubor coloriu-lhe as
faces.

O rapaz receou que daquele involuntrio encontro pudesse
nascer algum motivo de remorso para ele, e tratou de retirar-se. A moa
despediu-se, dizendo:

 At logo, sim?

 At logo.

O doutor saiu do gabinete de Celestina, e j entrava a
pensar como daria com o caminho para o seu quarto, quando encontrou  porta o
criado, que se preparou para acompanh-lo.

 Tu pareces a minha sombra, disse-lhe o doutor sorrindo.

 Sou apenas um criado do senhor.

Entrando no quarto ia o rapaz cheio de vivas impresses; a
pouco e pouco sentia-se transformado pela moa; at os receios se lhe
dissipavam; parecia-lhe que ao p dela no devia recear coisa nenhuma.

Os jornais estavam ainda em cima da mesa; perguntou ao
criado se seu amo costumava a l-los. O criado respondeu que no, que ningum
os lia em casa, e tinham sido assinados s por causa dele.

 S por minha causa?

 S.

VII

O jantar e a msica reuniram os trs convivas durante
perto de quatro horas. O doutor estava no stimo cu; j comeava a enxergar a
casa como sua; a vida que levava era para ele a melhor vida deste mundo.

 Um minuto mais tarde, pensava ele, e eu tinha perdido
esta felicidade.

Com efeito, pela primeira vez o rapaz amava seriamente;
Celestina aparecera-lhe como a personificao da ventura terrestre e das santas
efuses do corao. Contemplava-a com respeito e ternura. Podia viver ali
eternamente.

Entretanto a conversa sobre o casamento no se repetiu; o
major esperava que o rapaz se declarasse, e o rapaz aguardava oportunidade para
fazer a sua declarao ao major.

Quanto a Celestina, apesar de seu anglico estouvamento,
evitava falar do assunto. Seria recomendao do pai? O doutor chegou a sup-lo;
mas a idia varreu-se-lhe do esprito ante a considerao de que era tudo to
franco naquela casa que uma recomendao desta ordem s podia ter por causa um
grande acontecimento. O sculo na mo da moa no lhe pareceu acontecimento de
tanta magnitude.

Cinco dias depois da sua estada ali, o major disse-lhe ao
almoo que desejava falar-lhe, e com efeito, apenas se acharam os dois a ss, o
major tomou a palavra, e expressou-se nestes termos:

 Meu caro doutor, j deve ter percebido que eu no sou um
homem vulgar; nem sou mesmo um homem. Gosto do senhor porque tem respeitado a
minha origem celeste; se eu fugi ao mundo  porque ningum me queria respeitar.

Conquanto j tivesse ouvido do major algumas palavras dbias
nesse sentido, o dr. Antero ficou assombrado com o pequeno discurso, e no
achou resposta que lhe desse. Arregalou muito os olhos e abriu a boca; todo ele
era um ponto de admirao e interrogao ao mesmo tempo.

 Eu sou, continuou o velho, eu sou o anjo Rafael, mandado
pelo Senhor a este vale de lgrimas a ver se colho algumas boas almas para o
cu. No pude cumprir a minha misso, porque apenas disse quem era fui tido em
conta de impostor. No quis afrontar a ira e o sarcasmo dos homens; retirei-me a
esta morada, onde espero morrer.

O major dizia tudo com uma convico e serenidade que,
dado o caso de falar a um homem menos mundano, v-lo-ia logo ali a seus ps.
Mas o dr. Antero no viu na origem celeste do major mais do que uma monomania
pacfica. Compreendeu que era intil e perigoso contest-lo.

 Fez bem, disse o moo, fez bem em fugir ao mundo. Que h
a no mundo que valha um sacrifcio verdadeiramente grande? A humanidade j se
no regenera; se Jesus aparecesse hoje  duvidoso que lhe deixassem fazer o
discurso da montanha; matavam-no logo no primeiro dia.

Brilharam os olhos do major ouvindo as palavras do doutor;
quando ele acabou, o velho saltou-lhe ao pescoo.

 Disse prolas, exclamou o velho. Isso  que  ver as
coisas. Bem vejo, sai a seu pai; jamais ouvi daquele amigo palavra que no
fosse de venerao para mim. Tem o mesmo sangue nas veias.

O dr. Antero correspondeu como pde  efuso do anjo
Rafael, por cujos olhos saiam chispas de fogo.

 Ora, pois, continuou o velho sentando-se outra vez, 
isso mesmo o que eu desejava encontrar; um rapaz de bom carter, que pudesse
fazer de minha filha aquilo que ela merece, e no duvidasse da minha natureza
nem da minha misso. Diga-me, gosta de minha filha?

 Muito! respondeu o rapaz;  um anjo...

 Pudera! atalhou o major. Que queria ento que ela fosse?
H de casar com ela, no?

 Sem dvida.

 Bom, disse o major olhando para o doutor com um olhar
cheio de to paternal ternura, que o moo sentiu-se comovido.

Nesse momento, a criada de Celestina atravessou a sala, e
passando por trs da cadeira do major abanou a cabea com ar de compaixo; o
doutor apanhou o gesto que a criada fizera s para si.

 O casamento h de ser breve, continuou o major quando os
dois se acharam ss, e, como lhe disse, dou-lhe uma riqueza. Quero que
acredite; vou mostrar-lhe.

O dr. Antero recusou ir ver a riqueza, mas pede a verdade
que se diga que a recusa era simples formalidade. A atmosfera anglica da casa
j o tinha melhorado em parte, mas havia nele ainda uma parte do homem, e do
homem que passara metade da vida em dissipaes de esprito e sentimento.

Como o velho insistisse, o doutor declarou-se pronto a
acompanh-lo. Passaram dali a um gabinete onde o major tinha a biblioteca; o
major fechou a porta com a chave; depois disse ao doutor que tocasse uma mola
que desaparecia no lombo de um livro fingido, no meio de uma estante.

O doutor obedeceu.

Toda aquela fileira de livros era simulada; ao toque do
dedo do doutor abriu-se uma portinha que dava para um vo escuro onde se
achavam cinco ou seis caixinhas de ferro.

 Nessas caixas, disse o major, tenho eu cem contos de
ris: so seus.

Os olhos do dr. Antero faiscaram; via diante de si uma
fortuna, e s dependia dele possu-la.

O velho mandou que fechasse outra vez o esconderijo,
processo que lhe ensinou tambm.

 Fique sabendo, acrescentou o major, que  o primeiro a
quem mostro isto. Mas  natural; j o considero como filho.

Com efeito, foram para a sala da sesta, aonde Celestina
foi ter pouco depois; a vista da moa produziu no rapaz a boa impresso de
fazer-lhe esquecer as caixas de ferro e mais os cem contos.

Ali mesmo se marcou o dia do casamento, que devia ser um
ms depois.

O doutor estava disposto a tudo de to boa vontade, que a
recluso forada terminou logo; o major permitiu-lhe sair; mas o doutor
declarou que no sairia dali seno depois de casado.

 Depois ser mais difcil, disse o velho major.

 Pois bem, no sairei.

A inteno do rapaz era sair depois de casado, e para isso
inventaria algum meio; por enquanto, no queria comprometer a sua felicidade.

Celestina estava contentssima com o casamento; era uma
diverso na monotonia de sua vida.

Separaram-se depois do jantar, e j ento o doutor no
encontrou o criado para o conduzir ao quarto; tinha a liberdade de ir aonde
quisesse. O doutor foi direito ao quarto.

A sua situao tomava um novo aspecto; no se tratava de
um crime nem de uma emboscada; tratava-se de um monomanaco. Ora, por
felicidade do moo, esse monomanaco exigia dele exatamente aquilo que ele
estava disposto a fazer; tudo bem considerado, entrava-lhe pela porta uma
felicidade inesperada, que nem era lcito sonhar quando se est  beira do
tmulo.

No meio de belos sonhos o rapaz adormeceu.

VIII

O dia seguinte era um domingo.

O rapaz, depois de ler as notcias dos jornais e alguns
artigos polticos, passou aos folhetins. Ora, aconteceu que um deles tratava
precisamente do suicdio do dr. Antero da Silva. A carta pstuma servia de
assunto para as consideraes galhofeiras do folhetinista.

Um dos perodos dizia assim:

Se no fosse o suicdio do homem, eu no tinha assunto
ameno para tratar hoje. Felizmente lembrou-se de morrer a tempo, coisa que nem
sempre acontece a um marido, nem a um ministro de Estado.

Mas morrer era nada; morrer e deixar uma carta desfrutvel
como a que o pblico leu, isso  que  ter compaixo de um escritor aux
abois.

Desculpe o leitor o termo francs; vem do assunto; eu
estou convencido que o dr. Antero (que pelo nome no perca) leu algum romance
parisiense em que viu o original daquela carta.

Salvo se nos quis provar que no era simplesmente um
esprito medocre, mas tambm um formidvel tolo.

Tudo  possvel.

O doutor amarrotou o jornal quando acabou de ler o
folhetim; mas depois sorriu filosoficamente; e acabou achando razo no autor do
artigo.

Com efeito, aquela carta, que ele escrevera com tanta
alma, e que contava fizesse impresso no pblico, parecia-lhe agora uma famosa
tolice.

Dera talvez uma das caixas de ferro do major para no
t-la escrito.

Era tarde.

Mas o desgosto do folhetim no foi o nico; adiante
encontrou um convite para uma missa por sua alma. Quem convidava para a missa?
os seus amigos? No; o criado Pedro, que, ainda comovido com a ddiva dos
cinqenta mil-ris, achou que cumpria um dever sufragando a alma do amo.

 Bom Pedro! disse ele.

E assim como tinha tido naquela casa o primeiro amor, e o
primeiro remorso, teve ali a primeira lgrima, uma lgrima de gratido pelo
fiel criado.

Chamado para almoar, o doutor foi ter com o major e
Celestina. J ento a chave do quarto ficava com ele mesmo.

Sem saber por que, achou Celestina mais celeste que nunca,
e tambm mais sria do que costumava. A seriedade quereria dizer que o rapaz j
lhe no era indiferente? O dr. Antero pensou que sim, e eu, na qualidade de
romancista, direi que pensava bem.

Contudo a seriedade de Celestina no exclua a sua
afabilidade, nem ainda o seu estouvamento; era uma seriedade intermitente, uma
espcie de enlevo e cisma, a primeira aurora do amor, que enrubesce a face e
cerca a fronte de uma espcie de aurola.

Como j houvesse liberdade e confiana, o doutor pediu a
Celestina, no fim do almoo, que fosse tocar um pouco. A mocinha tocava
deliciosamente.

Encostado ao piano, com os olhos postos na moa, e a alma
embebida nas harmonias que os dedos dela desferiam do teclado, o dr. Antero
esquecia-se do resto do mundo para viver s daquela criatura que dentro de
pouco tempo ia ser sua mulher.

Durante esse tempo o major passeava, com as mos cruzadas
sobre as costas, e gravemente pensativo.

O egosmo do amor  implacvel; diante da mulher que o seduzia
e atraa, o moo nem tinha um olhar para aquele pobre velho demente que lhe
dava mulher e fortuna.

O velho de quando em quando parava e exclamava:

 Bravo! bravo! Assim tocars um dia nas harpas do cu!

 Gosta de me ouvir tocar? perguntou a moa ao doutor.

 Valia a pena morrer ouvindo esta msica.

No fim de um quarto de hora, o major saiu, deixando os
dois noivos na sala.

Era a primeira vez que ficavam a ss.

O rapaz no ousava reproduzir a cena da outra tarde; podia
haver um novo grito da moa e tudo estava perdido para ele.

Mas os seus olhos, esquecidamente embebidos nos da moa,
falavam melhor que todos os sculos deste mundo. Celestina olhava para ele com
essa confiana da inocncia e do pudor, essa confiana de quem no suspeita o
mal e s conhece o bem.

O doutor compreendeu que era amado; Celestina no
compreendeu, sentiu que estava presa quele homem por alguma coisa mais forte
que a palavra do pai. A msica cessara.

O doutor sentou-se defronte da moa, e disse-lhe:

 Casa-se comigo por vontade?

 Eu? respondeu ela; certamente que sim; gosto do senhor;
alm disso, meu pai quer, e quando um anjo quer...

 No zombe assim, disse o doutor; no  culpa...

 Zombar de qu?

 De seu pai.

 Ora essa!

  um desgraado.

 No conheo anjos desgraados, respondeu a moa com uma
graa to infantil e um ar de tanta convico que o doutor franziu a testa com
um gesto de espanto.

A moa continuou:

 Bem feliz que ele ; quem me dera ser anjo como ele! 
verdade que filha dele devo ser tambm... e, na verdade, sou tambm anglica...

O doutor ficou plido, e levantou-se com tanta
precipitao, que Celestina no pde reprimir um gesto de susto.

 Ah! que tem?

 Nada, disse o rapaz passando a mo pela testa; foi uma
vertigem.

Nesse momento entrou o major. Antes que tivesse tempo de
perguntar nada, a filha correu a ele e disse que o doutor se achava incomodado.

O moo declarou achar-se melhor; mas pai e filha foram de
opinio que devia ir descansar um pouco. O doutor obedeceu.

Quando chegou ao quarto atirou-se  cama e esteve alguns
minutos sem movimento, mergulhado em reflexes. As palavras incoerentes da moa diziam-lhe que no havia naquela casa s um doido; tanta graa e beleza nada valiam; a
infeliz estava nas condies do pai.

 Coitada! tambm  louca! Mas por que singular acordo de
circunstncias ambos eles esto de acordo nesta monomania celestial?

O doutor fazia esta e mil outras perguntas a si mesmo, sem
achar resposta plausvel. O que havia de certo  que o edifcio da sua ventura
acabava de esboroar-se.

S lhe restava um recurso; aproveitar a licena concedida
pelo velho e sair daquela casa, que parecia encerrar uma histria sombria.

Com efeito, ao jantar o dr. Antero declarou ao major que
tinha inteno de ir  cidade ver uns papis, no dia seguinte de manh;
voltaria de tarde.

No dia seguinte, logo depois do almoo, preparou-se o
rapaz para ir embora, no sem ter prometido a Celestina que voltaria o mais
cedo que pudesse. A moa pedia-lhe com alma; ele hesitou por um momento; mas
que fazer? era melhor fugir dali quanto antes.

Estava j pronto, quando sentiu bater-lhe  porta muito ao
de leve; foi abrir; era a criada de Celestina.

IX

Esta criada, que se chamava Antnia, representava ter
quarenta anos de idade. No era feia nem bonita; tinha umas feies comuns e
irregulares. Mas bastava olh-la para ver nela o tipo da bondade e da
dedicao.

Antnia entrou precipitadamente, e ajoelhou-se aos ps do
doutor.

 No v! sr. doutor! no v!

 Levante-se, Antnia, disse o rapaz.

Antnia levantou-se e repetiu as mesmas palavras.

 Que eu no v? perguntou o doutor; mas por qu?

 Salve aquela menina!

 Pois qu! ela est em perigo?

 No; mas  preciso salv-la. Pensa que eu no adivinhei
o seu pensamento? O senhor quer ir-se embora de uma vez.

 No; prometo...

 Quer, e eu lhe peo que no v... pelo menos at amanh.

 Mas no me explicar...

 Agora,  impossvel; pode vir gente; mas esta noite;
olhe,  meia-noite, quando ela j estiver dormindo, eu virei aqui e lhe
explicarei tudo. Mas promete que no vai?

O rapaz respondeu maquinalmente.

 Prometo.

Antnia saiu precipitadamente.

No meio daquela constante alternativa de boas e ms
impresses, naquele desenrolar de emoes diversas, de mistrios diferentes,
era de admirar que o esprito do rapaz no ficasse abalado, to abalado como o
do major. Parece que chegou a recear de si.

Logo depois que saiu Antnia, sentou-se o doutor, e entrou
a conjecturar que perigo seria aquele de que
era preciso salvar a pequena. Mas no atinando com ele, resolveu ir ter com ela
ou com o major, e j se preparava para isso, quando o futuro sogro lhe entrou
pelo quarto.

Vinha alegre e lpido.

 Ora, guarde-o Deus, disse ele ao entrar;  a primeira
vez que o visito no seu quarto.

  verdade, respondeu o doutor. Queira sentar-se.

 Mas tambm o motivo que me traz aqui  importante, disse
o velho assentando-se.

 Ah!

 Sabe quem morreu?

 No.

 O diabo.

Dizendo isto deu uma gargalhada nervosa que fez estremecer
o doutor; o velho continuou:

 Sim, senhor, morreu o diabo; o que  grande fortuna para
mim, porque me d a maior alegria da minha vida. Que lhe parece?

 Parece-me que  uma felicidade para ns todos, disse o
dr. Antero; mas como soube da notcia?

 Soube por carta que recebi hoje do meu amigo Bernardo,
tambm amigo de seu pai. No vejo o Bernardo h doze anos; chegou agora do
Norte, e apressou-se a escrever-me para dar esta agradvel notcia.

O velho levantou-se, passeou pelo quarto sorrindo,
murmurando algumas palavras sozinho, e parando de quando em quando para
contemplar o hspede.

 No acha, disse ele numa das vezes que parou, no acha
que esta notcia  a melhor festa que posso ter por ocasio de casar minha
filha?

 Com efeito, assim , respondeu o rapaz levantando-se;
mas, visto que o inimigo da luz morreu, no falemos mais nele.

 Tem muita razo; no falemos mais nele.

O doutor dirigiu a conversa para assuntos diversos; falou
de campanhas, de literatura, de plantaes, de tudo quanto afastasse o major
dos assuntos anglicos ou diablicos.

Finalmente saiu o major dizendo que esperava o coronel
Bernardo, seu amigo, para jantar, e que teria sumo prazer em apresentar-lhe.

Mas a hora do jantar chegou sem que chegasse o coronel, de
maneira que o doutor ficou convencido de que o coronel, a carta e o diabo no
passavam de criaes do major. Devia estar convencido desde princpio; e se
estivesse convencido estaria em erro, porque o coronel Bernardo apresentou-se
em casa s ave-marias.

Era um homem cheio de corpo, robusto, vermelho, olhos
vivos, falando apressadamente, um homem sem cuidados nem remorsos. Representava
quarenta anos e tinha cinqenta e dois; vestia uma sobrecasaca militar.

O major abraou o coronel com uma satisfao ruidosa, e
apresentou-o ao dr. Antero como um dos seus melhores amigos. Apresentou o
doutor ao coronel declarando ao mesmo tempo que ia ser seu genro; e finalmente
mandou chamar a filha, que no tardou muito a chegar  sala.

Quando o coronel ps os olhos em Celestina
arrasaram-se-lhe os olhos de lgrimas; tinha-a visto pequena e achava-a moa
feita, e moa bonita. Abraou-a paternalmente.

Durou a conversa entre os quatro uma meia hora, tempo em
que o coronel, com uma volubilidade que contrastava com a frase pausada do
major, contou mil e uma circunstncias da sua vida de provncia.

No fim desse tempo, o coronel declarou que queria falar em
particular ao major; o doutor retirou-se para o seu quarto, deixando Celestina,
que poucos minutos depois retirou-se tambm.

O coronel e o major fecharam-se na sala; ningum ouvia a
conversa, mas o criado viu que s  meia-noite saiu da sala o coronel,
dirigindo-se para o quarto que lhe haviam preparado.

Quanto ao doutor, apenas entrou no quarto viu sobre a mesa
uma carta, com sobrescrito para ele. Abriu e leu o seguinte:

 Meu noivo, escrevo-lhe para dizer que no se esquea de
mim, que sonhe comigo, e que goste de mim como eu gosto do senhor.  Sua noiva,
Celestina.

Nada mais.

Era uma cartinha de amores pouco parecida com as que se
escrevem em casos tais, uma carta simples, ingnua, audaz, sincera.

O rapaz releu-a, beijou-a e levou-a ao corao.

Depois preparou-se para receber a visita de Antnia, que,
como os leitores se devem lembrar, estava marcada para a meia-noite.

Para matar o tempo o rapaz abriu um dos livros que estavam
sobre a mesa. Acertou de ser Paulo e Virgnia; o doutor nunca havia lido o
celeste romance; o seu ideal e a sua educao o afastavam daquela literatura.
Mas agora tinha o esprito preparado para apreciar pginas tais; sentou-se e
leu rapidamente metade da obra.

X

A meia-noite ouviu bater  porta; era Antnia.

A boa mulher entrou com preparao; receava que o menor
rudo a comprometesse. O rapaz fechou a porta, e fez com que Antnia se
sentasse.

 Agradeo-lhe o ter ficado, disse ela sentando-se, e vou
dizer-lhe que perigo ameaa a minha pobre Celestina.

 Perigo de vida? perguntou o doutor.

 Mais do que isso.

 De honra?

 Menos que isso.

 Ento...

 O perigo da razo; eu receio que a pobre moa fique
louca.

 Receia? disse o doutor sorrindo tristemente; est certa
de que ela j o no est?

 Estou. Mas pode vir a ficar, to louca como o pai.

 Esse...

 Esse est perdido.

 Quem sabe?

Antnia abanou a cabea.

 Deve estar, porque h doze anos que perdeu a razo.

 Sabe o motivo?

 No sei. Eu vim para esta casa h cinco anos; a menina
tinha dez; era, como hoje, uma criaturinha viva, alegre e boa. Mas nunca tinha
sado daqui;  provvel que no tenha visto em sua vida mais de dez pessoas.
Ignora tudo. O pai, que j ento estava convencido de que era o anjo Rafael,
como ainda hoje diz, repetia-o  filha constantemente, de maneira que ela
acredita firmemente ser filha de um anjo. Tentei dissuadi-la disso; mas ela foi
contar ao major, e este ameaou-me de mandar-me embora se eu inculcasse ms
idias  filha. Era m idia dizer  menina que ele no era o que dizia e
simplesmente um desgraado doido.

 E a me dela?

 No conheci; perguntei por ela a Celestina; e soube que
ela tambm a no conhecera, pela razo de que no tivera me. Referiu-me ter
sabido, por boca de seu pai, que ela viera ao mundo por obra e graa do cu.
Bem v que a menina no est louca; mas aonde ir ter com estas idias?

O doutor estava pensativo; compreendia agora as palavras
incoerentes da moa ao piano. A narrao de Antnia era verossmil. Cumpria
salvar a moa levando-a para fora dali. Para isso o casamento era o melhor
meio.

 Tens razo, boa Antnia, disse ele, salvaremos
Celestina; descansa em mim.

 Jura?

 Juro.

Antnia beijou a mo ao rapaz, derramando algumas lgrimas
de contentamento.  que Celestina era para ela mais do que ama, era uma espcie
de filha criada na solido.

Saiu a criada, e o doutor deitou-se, no s porque a hora
era adiantada, como porque o seu esprito pedia algum repouso ao cabo de tantas
e novas emoes.

No dia seguinte falou ao major na necessidade de abreviar
o casamento, e por conseqncia na de arranjar os papis.

Concordou-se que o casamento seria na capela de casa, e o
major concedeu licena para que um padre os casasse; isto pela considerao de
que, se Celestina, como filha de um anjo, estava acima de um padre, no
acontecia o mesmo com o doutor, que era simplesmente um homem.

Quanto aos papis, levantou-se uma dvida relativamente 
declarao do nome da me da moa. O major declarou peremptoriamente que
Celestina no tinha me.

Mas o coronel, que estava presente, interveio no debate,
dizendo ao major estas palavras, que o doutor no compreendeu, mas que lhe
fizeram impresso:

 Toms! lembra-te de ontem  noite.

O major calou-se imediatamente. Quanto ao coronel,
voltando-se para o dr. Antero disse-lhe:

 Tudo se h de arranjar: descanse.

A conversa ficou nisto.

Mas houve quanto bastasse para que o doutor descobrisse
nas mos do coronel Bernardo o fio daquela meada. O rapaz no hesitou em
aproveitar a primeira ocasio para entender-se com o coronel a fim de o
informar acerca dos mil e um pontos obscuros daquele quadro que h dias tinha
diante dos olhos.

Celestina no assistira  conversa; estava na outra sala
tocando piano. O doutor l foi ter com ela, e achou-a triste. Perguntou-lhe por
qu.

 Eu sei! respondeu a moa; est-me parecendo que o senhor
no gosta de mim; e se me perguntar por que [3] a gente gosta dos outros, no
sei.

O moo sorriu, pegou-lhe na mo, apertou-a entre as suas,
e levou-a aos lbios. Desta vez, Celestina no gritou, nem resistiu; ficou a
olhar embebida para ele, pendente dos seus olhos, pode-se dizer que pendente da
sua alma.

XI

Na noite seguinte, o dr. Antero passeava no jardim,
justamente por baixo da janela de Celestina. A moa no sabia que ele se achava
ali, nem o rapaz quis por modo nenhum chamar a ateno dela. Contentava-se em
olhar de longe, vendo de quando em quando desenhar-se na parede a sombra
daquele delicado corpo.

Havia lua e o cu estava sereno. O doutor, que at ali no
conhecia nem apreciava os mistrios da noite, aprazia-se agora em conversar com
o silncio, a sombra e a solido.

Quando se achava mais embebido com os olhos na janela,
sentiu que algum lhe batia no ombro.

Estremeceu, e voltou-se rapidamente.

Era o coronel.

 Ol, meu caro doutor, disse o coronel, faz um idlio
antes do casamento?

 Estou tomando fresco, respondeu o doutor; a noite est magnfica
e l dentro est calor.

 Isto  verdade; eu tambm vim tomar fresco. Passeamos,
se lhe no interrompo as reflexes.

 Pelo contrrio, e eu at estimo...

 Ter-me encontrado?

 Justo.

 Pois ento melhor.

O rumor das palavras trocadas pelos dois foi ouvido no
quarto de Celestina. A moa chegou  janela e procurou ver se descobria de quem
eram as vozes.

 L est ela, disse o coronel. Olhe!

Os dois homens aproximaram-se, e o coronel disse para
Celestina:

 Somos ns, Celestina; eu e o teu noivo.

 Ah! que andam fazendo?

 Bem vs; tomando fresco.

Houve um silncio.

 No me diz nada, doutor? perguntou a moa.

 Contemplo-a.

 Faz bem, respondeu ela; mas como o ar pode fazer-me mal,
boa noite.

 Boa noite!

Celestina entrou, e pouco depois fechou-se a janela.

Quanto aos dois homens, dirigiram-se para um banco de pau
que ficava na outra extremidade do jardim.

 Diz ento que estimava encontrar-me?

  verdade, coronel; peo-lhe uma informao.

 E eu vou dar-lhe.

 Sabe o que ?

 Adivinho.

 Tanto melhor; evita-me um discurso.

 Quer saber quem  a me de Celestina?

 Em primeiro lugar.

 Pois que mais?

 Quero saber depois qual a razo desta loucura do major.

 No sabe nada?

 Nada. Eu estou aqui em conseqncia de uma aventura
singularssima que lhe vou narrar.

O doutor repetiu ao coronel a histria da carta e do
recado que o chamara ali, sem ocultar que o convite do major chegara justamente
na ocasio em que ele se achava disposto a romper com a vida.

O coronel ouviu atentamente a narrao do moo; ouviu
tambm a confisso de que a entrada naquela casa fizera do doutor um bom homem,
quando no passava de um homem intil e mau.

 Confisso por confisso, disse o doutor; venha a sua.

O coronel tomou a palavra.

 Fui amigo de seu pai e do major; seu pai morreu h
muito; ficamos eu e o major como dois sobreviventes dos trs irmos Horcios,
nome que nos davam os homens do nosso tempo. O major era casado, eu solteiro.
Um dia, por motivos que no vm ao caso, o major suspeitou que sua mulher lhe
era infiel, e expulsou-a de casa. Eu tambm acreditei na infidelidade de
Fernanda, e aprovei, em parte, o ato do major. Digo-lhe em parte, porque a
pobre mulher no dia seguinte no tinha de comer; e foi de minha mo que recebeu
alguma coisa. Protestou ela por sua inocncia com as lgrimas nos olhos; eu no
acreditei nas lgrimas nem nos protestos. O major ficou louco, e veio para esta
casa com a filha, e nunca mais saiu. Acontecimentos imprevistos me obrigaram a
ir pouco depois para o Norte, onde estive at h pouco. E no teria voltado
se...

O coronel estacou.

 Que ? perguntou-lhe o doutor.

 No v um vulto ali?

 Aonde?

 Ali.

Com efeito encaminhava-se um vulto para os dois
interlocutores; a alguns passos reconheceram ser o criado Jos.

 Sr. Coronel, disse o criado, ando  sua procura.

 Por qu?

 O amo quer falar-lhe.

 Bem; l vou.

O criado retirou-se, e o coronel continuou:

 No teria voltado se no adquirisse a certeza de que as
suspeitas do major eram todas infundadas.

 Como?

 Fui encontrar, depois de tantos anos, na provncia em
que me achava, a esposa do major servindo de criada em uma casa. Tinha tido uma
vida exemplar; as informaes que obtive confirmavam as asseveraes dela. As
suspeitas fundavam-se numa carta achada em poder dela. Ora, essa carta
comprometia uma mulher, mas no era Fernanda; era outra, cujo testemunho ouvi
no ato de morrer. Compreendi que era talvez o meio de chamar o major  razo
vir contar-lhe isso tudo. Vim, com efeito, e expus-lhe o que sabia.

 E ele?

 No acredita; e quando parece ir-se convencendo das
minhas asseveraes, volta-lhe a idia de que ele no  casado, porque os anjos
no casam; enfim, o mais que o senhor sabe.

 Ento est perdido?

 Creio que sim.

 Nesse caso cumpre salvar-lhe a filha.

 Por qu?

 Porque o major educou Celestina na mais absoluta
recluso possvel, e desde pequena incutiu-lhe a idia de que anda possudo, de
maneira que eu tenho medo de que a pobre moa sofra igualmente.

 Descanse; o casamento ser feito quanto antes; e o
senhor a levar daqui; em ltimo caso, se no pudermos convenc-lo, sairo sem
que ele o saiba.

Levantaram-se os dois, e ao chegarem perto da casa,
saiu-lhes ao encontro o criado, trazendo um novo recado do major.

 Parece-me que est doente, acrescentou o criado.

 Doente?

O coronel apressou-se a ir ter com o amigo, enquanto o
doutor foi para o quarto esperar notcias dele.

XII

Quando o coronel entrou no quarto do major achou-o muito
aflito. Passeava de um lado para outro, agitado, proferindo palavras
incoerentes, com o olhar desvairado.

 Que tens, Toms?

 Ainda bem que vieste, disse o velho; sinto-me mal; veio
aqui h pouco um anjo buscar-me; disse-me que eu estava fazendo falta no cu.
Creio que me vou embora desta vez.

 Deixa-te disso, respondeu o coronel; foi caoada do
anjo; descansa, tranqiliza-te.

O coronel conseguiu fazer com que o major se deitasse.
Apalpou-lhe o pulso, e sentiu-lhe febre. Entendeu que era conveniente mandar
buscar um mdico, e deu ordem ao criado nesse sentido.

Acalmou-se a febre do major, que conseguiu dormir um
pouco; o coronel mandou preparar uma cama no mesmo quarto, e depois de ir dar
parte ao doutor do que acontecera, voltou para o quarto do major.

No dia seguinte o doente levantou-se melhor; o mdico,
tendo chegado sobre a madrugada, no chegou a aplicar-lhe nenhum remdio, mas
l ficou para o caso de ser preciso.

Quanto a Celestina, nada soube do que havia acontecido; e
acordou alegre e viva como nunca.

Mas sobre a tarde voltou a febre ao major, e desta vez de
um modo violento. Dentro de pouco tempo declarou-se a proximidade da morte.

O coronel e o doutor tiveram cuidado de afastar Celestina,
que no sabia o que era morrer, e podia sofrer com a vista do pai moribundo.

O major, cercado pelos dois amigos, pedia-lhes com
instncia que lhe fossem buscar a filha; mas eles no consentiram nisso. Ento,
o pobre velho instou com o doutor que no deixasse de casar com ela, e ao mesmo
tempo repetiu a declarao de que lhe deixava uma fortuna. Enfim sucumbiu.

Ficou assentado entre o coronel e o doutor que a morte do
major seria participada  filha depois de feito o enterro, e que este teria
lugar com a maior discrio possvel. Assim se fez.

A ausncia do major ao almoo e ao jantar do dia seguinte
foi explicada a Celestina como proveniente de uma conferncia em que ele estava
com pessoas de sua amizade.

De maneira que, ao passo que do outro lado da casa se
achava o cadver do pai, a filha ria e conversava  mesa como nos seus melhores
dias.

Mas feito o enterro era preciso diz-lo  filha.

 Celestina, disse-lhe o coronel, tu vais casar brevemente
com o dr. Antero.

 Mas quando?

 Daqui a dias.

 Dizem-me isso h que tempo!

 Pois agora  de uma vez. Teu pai...

 Que tem?

 Teu pai no volta por enquanto.

 No volta? disse a moa. Pois onde foi ele?

 Teu pai foi para o cu.

A moa ficou plida ouvindo a notcia; no lhe ligava
nenhuma idia fnebre; mas o corao adivinhava que por trs daquela notcia
havia uma catstrofe.

O coronel procurou distra-la.

Mas a moa, vertendo duas lgrimas, duas s, mas que
valiam por cem, disse com profunda amargura:

 Papai foi para o cu e no se despediu de mim!

Depois recolheu-se ao quarto at o dia seguinte.

O coronel e o doutor passaram a noite juntos.

Declarou o doutor que a fortuna do major estava por trs
de uma estante, na biblioteca, e que ele sabia o meio de abri-la. Assentaram os
dois no meio de apressar o casamento de Celestina sem prejuzo dos atos da
justia.

Cumpria, porm, antes de tudo, arrancar a moa daquela
casa; o coronel indicou a casa de uma parenta sua, para onde a levariam no dia
seguinte. Assentados estes pormenores, o coronel perguntou ao doutor:

 Ora, diga-me; no cr agora que haja uma providncia?

 Sempre acreditei.

 No minta; se acreditasse no teria recorrido ao
suicdio.

 Tem razo, coronel; dir-lhe-ei at: eu era um pouco de
lodo, hoje sinto-me prola.

 Compreendeu-me bem; eu no queria aludir  fortuna que
veio encontrar aqui, mas a essa reforma de si mesmo, a essa renovao moral,
que obteve com este ar e na contemplao daquela formosa Celestina.

 Diz bem, coronel. Quanto  fortuna, estou pronto a...

 A qu? a fortuna  de Celestina; no deve desfazer-se
dela.

 Mas podem supor que o casamento...

 Deixe supor, meu amigo. Que lhe importa ao senhor que
suponham? No tem a sua conscincia, que lhe no arge coisa nenhuma?

  verdade; mas a opinio...

 A opinio, meu caro, no  mais do que uma opinio; no
 a verdade. Acerta s vezes; outras calunia, e quer a desgraa que mais vezes
calunie do que acerte.

O coronel em matria de opinio pblica era um perfeito
ateu; negava-lhe a autoridade e a supremacia. Umas das suas mximas era esta:
A opinio pblica  um muro em branco: aceita tudo quanto lhe escrevem em
cima, quer venha da mo de um garoto, quer da de um homem de bem.

Foi difcil ao doutor e ao coronel convencer a Celestina
de que deveria sair daquela casa; mas enfim alcanaram lev-la para a cidade de
noite. A parenta do coronel, prevenida a tempo, recebeu-a em casa.

Arranjadas as coisas de justia, tratou-se de realizar o
casamento.

Antes porm de chegar a esse ponto to almejado pelos dois
noivos, foi preciso habituar Celestina  vida nova que comeava a viver e que
ela no conhecia. Educada entre as paredes de uma casa isolada, longe de todo o
rumor, e sob direo de um homem enfermo da razo, Celestina entrou num mundo
que jamais sonhara, nem dele tinha notcia.

Tudo para ela era objeto de curiosidade e espanto. Cada
dia trazia-lhe uma emoo nova.

Admirava a todos que, apesar da singular educao que
tivera, soubesse tocar to bem; ela tivera com efeito um mestre chamado pelo
major, que desejava, dizia ele, mostrar que um anjo, e principalmente o anjo
Rafael, sabia fazer as coisas como os homens. Quanto  leitura e escritura, foi
ele mesmo quem lhe ensinou.

XIII

Logo depois que voltou  cidade, o dr. Antero teve cuidado
de escrever a seguinte carta aos seus amigos:

O dr. Antero da Silva, recentemente suicidado, tem a honra
de participar a V. que voltou do outro mundo, e se acha ao seu dispor no hotel
de ***.

Encheu-se-lhe a sala de gente que correra a v-lo; alguns
incrdulos supuseram simples caoada de algum homem amigo de pregar peas aos
outros. Foi um concerto de exclamaes:

 No morreste!

 Pois qu! ests vivo!

 Mas que foi isto!

 Aqui houve milagre!

 Qual milagre, respondia o doutor; foi simplesmente um
meio engenhoso de ver a impresso que causaria a minha morte; j soube quanto
quisera saber.

 Oh! disse um dos presentes, foi profunda; pergunta ao
Csar.

 Quando soubemos do desastre, acudiu Csar, no quisemos
crer; corremos  tua casa; era infelizmente verdade.

 Que marreco! exclamava um terceiro, fazer-nos chorar por
ele, quando talvez se achasse perto de ns... Nunca te hei de perdoar aquelas
lgrimas.

 Mas, disse o doutor, a polcia parece que chegou a
reconhecer o meu cadver.

 Disse que sim, e eu acreditei.

 Eu tambm.

Nesse momento entrou na sala um novo personagem; era o
criado Pedro.

O doutor rompeu por entre os amigos e foi abraar o
criado, que entrou a derramar lgrimas de contentamento.

Aquela efuso em relao a um criado, comparada  frieza
relativa com que o doutor os recebera, incomodou aos amigos que ali se achavam.
Era eloqente. Saram os amigos pouco depois declarando que o contentamento de
v-lo lhes inspirava a idia de lhe dar um jantar. O doutor recusou o jantar.

No dia seguinte, os jornais declararam que o dr. Antero da
Silva, que se julgava morto, se achava vivo e aparecera; e logo nesse dia
recebeu o doutor a visita dos credores, que, pela primeira vez, viam
ressuscitar uma dvida j sepultada.

Quanto ao folhetinista de um dos jornais que tratara da
morte do doutor e da carta que ele deixara, encabeou o seu artigo do prximo
sbado assim:

 Dizem que reapareceu o autor de uma carta com que me
ocupei ultimamente. Ser verdade? Se voltou no  autor da carta; se  autor da
carta no voltou.

A isto respondeu o ressuscitado:

Voltei do outro mundo, e apesar disso sou o autor da
carta. Do mundo de que venho trago uma boa filosofia: ter em nenhuma conta a
opinio dos meus contemporneos, e em menos ainda a dos meus amigos. Trouxe
mais alguma coisa, mas isso importa pouco ao pblico.

XIV

Efetuou-se o casamento trs meses depois.

Celestina estava outra; perdera aquele estouvamento
ignorante que era o principal trao do seu carter, e com ele as idias
extravagantes que o major lhe incutira.

O coronel assistiu ao casamento.

Um ms depois o coronel foi despedir-se dos noivos,
voltava para o Norte.

 Adeus, meu amigo, disse-lhe o doutor; nunca esquecerei o
que fez por mim.

 Eu no fiz nada; ajudei a boa sorte.

Celestina despediu-se do coronel com lgrimas.

 Por que choras, Celestina? disse o velho, eu volto
breve.

 Sabe por que ela chora? perguntou o doutor; eu j lhe
disse que sua me estava no Norte; ela sente no poder v-la.

 Ve-la-, porque eu vou busc-la.

Quando o coronel saiu, Celestina ps os braos  roda do pescoo
do marido, e disse com um sorriso entre lgrimas:

 Ao p de ti e de minha me, que mais quero eu na terra?

No ideal da felicidade da moa j no entrava o coronel. 
amor!  corao!  egosmo humano!
