MISCELNEA, Pedro Lus, 1884

Pedro Lus

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente
  em  A Ilustrao
  ,
  Rio de Janeiro, no. 11, 05/10/1884.

Jornalista, poeta, deputado, administrador, ministro e
  homem da mais fina sociedade fluminense, pertencia este moo  gerao que
  comeou por 1860.

Chamava-se Pedro Lus Pereira de Sousa, e nasceu no
  municpio de Araruama, Provncia do Rio de Janeiro, a 15 de dezembro de 1839,
  filho do Comendador Lus Pereira de Sousa e de D. Maria Carlota de Viterbo e
  Sousa. Era formado em cincias sociais e jurdicas pela Faculdade de So Paulo.

Comeou a vida poltica na folha de Flvio Farnese, a Atualidade, de colaborao com Lafayette
  Rodrigues Pereira, atualmente senador, e com Bernardo Guimares, mavioso poeta
  mineiro, h pouco falecido. Ao mesmo tempo iniciou vida de advogado no
  escritrio de F. Otaviano.

Essa primeira fase da vida de Pedro Lus d vontade de ir
  longe.

A figura de Flvio Farnese surge debaixo da pena e incita
  a recompor com ela uma quadra inteira de f e de entusiasmo liberal. Ao lado de
  Farnese, de Lafayette, de Pedro Lus, vieram outros nomes que, ou cresceram
  tambm, ou pararam de todo, por morte ou por outras causas. Sobre tal tempo 
  passado um quarto de sculo, o espao de uma vida ou de um reinado. Olha-se
  para ele com saudade e com orgulho.

Conheci Pedro Lus na imprensa. amos ao Senado tomar nota
  dos debates, ele, Bernardo Guimares e eu, cada qual para o seu jornal.
  Bernardo Guimares era da gerao anterior, companheiro de lvares de Azevedo,
  mas realmente no tinha idade; no a teve nunca. A nota juvenil era nele a expresso
  de humor e do talento.

Nem Bernardo nem eu amos para a milcia
  poltica; Pedro Lus, dentro de pouco foi eleito deputado pelo 2 distrito
  da Provncia do Rio de Janeiro com os conselheiros Manuel de Jesus Valdetaro e
  Eduardo de Andrade Pinto. A estria de Pedro Lus na tribuna foi um grande
  sucesso do tempo, e est comemorada nos jornais com a justia que merecia. Tratava-se
  de um projeto concedendo um pedao de terra a um Padre Janrard, lazarista.
  Pedro Lus fez desse negcio insignificante uma batalha de eloqncia, e
  proferiu um discurso cheio de grande alento liberal. Surdiram-lhe em frente dois
  adversrios respeitveis: Monsenhor Pinto de Campos, que reunia aos sentimentos
  de conservador o carter sacerdotal, e o Dr. Junqueira, atual senador: eram dois
  nomes feitos e tanto bastava a honrar o estreante orador.

As vicissitudes polticas fizeram-se sentir em breve.

Pedro Lus no foi reeleito na legislatura seguinte. Em
  1868, cada a situao liberal, o Conselheiro Otaviano tratou da fundao da Reforma,
  e convidou Pedro Lus, que ali trabalhou ao lado da fina flor do partido.

Ento, como antes, cultivou as letras, deixando algumas
  composies notveis, como 'Os Voluntrios da Morte', 'Terribilis Dea', "Tiradentes'
  e 'Nunes Machado'. A primeira destas tinha sido recitada por ele
  mesmo, em uma casa da Rua da Quitanda, onde se reuniam alguns amigos e homens
  de letras; e foi uma revelao de primeira ordem. Recitada pouco depois no
  teatro e divulgada pela imprensa, correu o Imprio e atravessou o oceano, sendo
  reproduzida em Lisboa, donde o Visconde de Castilho escreveu ao poeta
  dizendo-lhe que essa ode era um rugido de leo.

Todas as demais composies tiveram o mesmo efeito. So,
  na verdade, cheias de grande vigor potico, raro calor e movimento lrico.

No tardou que a poltica ativa o tomasse inteiramente. Em
  1877 subiu ao poder o Partido Liberal, e ele tornou  Cmara dos Deputados,
  representando a Provncia do Rio de Janeiro. A 28 de maro de 1880, organizando
  o Sr. Senador Saraiva o seu ministrio, confiou a Pedro Lus a pasta dos
  negcios estrangeiros, para a qual pareciam indic-lo especialmente as qualidades
  pessoais. Nem ocupou somente essa pasta; foi sucessivamente ministro interino
  da marinha, do imprio e da agricultura.

No ministrio da agricultura, que ele regeu duas vezes, e
  a segunda por morte do Conselheiro Buarque de Macedo, encontramo-nos os dois,
  trabalhando juntos, como em 1860, mas ele agora era ministro de Estado, e eu
  to-somente oficial de gabinete. Cito esta circunstncia para afirmar com o meu
  testemunho pessoal, que esse moo, suposto sibarita e indolente, era nada menos
  que um trabalhador ativo, zeloso do cargo e da pessoa; todos os que o
  praticaram de perto podem atestar isto mesmo. Deixou o seu nome ligado a muitos
  atos de administrao interior ou de natureza diplomtica.

Posta em execuo a reforma eleitoral, obra do prprio
  ministrio dele, o Conselheiro Pedro Lus, que ento era ministro de duas
  pastas, no conseguiu ser eleito. Aceitou a derrota com o bom humor que lhe era
  prprio, embora tivesse de padecer na legtima ambio poltica; mas estava
  moo e forte, e a derrota era das que laureiam. No ter algumas centenas de
  votos  apenas no dispor da confiana de outras tantas pessoas, coisa que no
  prejulga nada. O desdouro seria cair mal, e ele caiu com gentileza.

Pouco tempo depois foi nomeado presidente da Provncia da
  Bahia, donde voltou enfermo, com a morte
  em si. Na Bahia
  deixou
  verdadeiras saudades; era estimado de toda a gente, respeitado e benquisto.

O organismo, porm, comeou a deperecer, e o repouso e
  tratamento tornaram-se-lhe indispensveis; alcanou a demisso do cargo e
  regressou  vida particular.

Faleceu na sua fazenda da Barra Mansa, s 4 horas da
  madrugada do dia 16 de julho do corrente ano de 1884.

Era casado com D. Amlia Valim Pereira de Sousa, filha do Comendador
  Manuel de Aguiar Valim, fazendeiro do municpio de Bananal, e chefe ali do
  Partido Conservador. Um dos jornais do Rio de Janeiro mencionou esta
  circunstncia:

Tal era a amenidade do carter
  de Pedro Lus, que, a despeito de suas opinies polticas, seu sogro o prezava
  e distinguia muito, assim como outros muitos fazendeiros importantes daquele
  municpio, sem distino de partido.

Ningum que o praticou intimamente deixou de trazer a
  impresso de uma verdadeira personalidade, podendo acrescentar-se que ele no
  deu tudo que era de esperar do seu talento, e que valia ainda mais do que a sua
  reputao.

Posto que um tanto ctico, era sensvel, profundamente
  sensvel;  tinha instruo variada, gosto fino e puro, nada trivial nem
  chocho; era cheio de bons ditos, e observador como raros.
